terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O POETA



Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida fora.
Tudo aquilo em que ponho afecto
fica mais rico e me devora


                      Rainer Maria Rilke

    Fotografia da autoria de Maria Andersen



LITANIA


                                                



  
              Trabalho fotografico de Maria Andersen



O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor de um fruto, o peso de uma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror;

são a grande razão, a única razão.


                              Eugénio de Andrade

REPOUSO


Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insectos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.

                                                     
                                                       Walt Whitman

Fotografia de Maria Andersen

MISTÉRIO

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.

Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita


                       Walt Whitman




  Fotografia da autoria de Maria Andersen

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

entrem...é meu amigo & vizinho...

Homenagem a Eugénio de Andrade

                                   

                    Vídeo e poema meus, em homenagem a Eugénio de Andrade

Os moinhos das tuas mãos oceânicas

Ah noite  longa do  olhar  em que te bebo
que posso fazer senão beber-te  os olhos nas linhas curvas das letras
manhã & noite                  & o pretexto  original de amar-te
abraçada a cada ângulo da tua boca
& tu cada vez mais brisa            mais poema                       mais alvorada
Delicias …em que floresces
Lábios  lentos no tambor do teu peito
Consolo de tantas horas onde as tuas mãos hesitam
Violino em que as palavras se orvalham
Nessa prece  do inverno que te volteia
Curiosidade dos dias intermináveis
& cardumes em nossas línguas
 nessa dança arrebatada dos teus braços invisíveis
como um leme ao redor de mim
& que vorazes  os pensamentos
portas abertas –
 para os moinhos das tuas mãos oceânicas
poema em que gemo
a desesperada ânsia dos deuses nesta hora
na vaga da vida Ariadne
a que me entrego
teus olhos em que o amor balbucia o colírio dos meus olhos
ai esta estranha dança em que te quero
baloiço do teu peito em que sorrio
Ave a cantar impregnada de música
& as sílabas deste poema – viagem
batalha do eterno  olhar
na lanterna da tua voz



Fotografia e Poema da autoria de Maria Andersen