quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Poemato

Vou descendo pelo vestígio da casa
& assim aproo nos confins do verbo

ah    como corta e sangra

essa nudez 

eu

só a sós em ti
onde o tempo passa & eu fico

assim me despojo & concentro
no declive do verso

na lamina afiada da vida

nesse novelo em que desfio o tempo e a mim


mas

não me  peçam palavras avulso
nem   regra de prumo e de estilo
para fechar em alta o poema
só já aspiro a saber dividir-me a mim

em espanto          & canto           & contemplações

 
     Fotografia e poema de Maria Andersen

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A vida





A vida
é raiva
 é grito
 é peito
do poema

ardente
enleio
a fonte
a fronte
o ventre


latente
a semente
o rosto
o rastro
o resto



e logo
abaixo
 sento-me

o presente
 sente
o indomável
sentir

Poema e fotografia de Maria Andersen


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado.
Aí está: eis a única questão.
Para não sentirem o fardo  horrível do
tempo que verga e inclina para a terra, é
preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtudes, a
escolher  .  Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio,
sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou
desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vaga; à estrela; ao pássaro, ao relógio, a
tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a
tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que
horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o
relógio responderão:”É hora de
embriagar-se !  Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se ;
embriaguem-se sem descanso”. Com vinho,
poesia ou virtude, a escolher.

                                   Walt Whitman

Fotografia de Maria Andersen

sábado, 15 de janeiro de 2011

Os meus sentidos....



Mergulha
na noite suave do meu ventre
como um solitário buscador de ilhas
álacre esplendor da madrugada
flauta que  anuncia
o tempo sem mácula e sem uso

intimas pulsações dos meus sentidos
inclemente sede dum deserto

deixa-me

em teu universo fazer-te um grito
com a  ousadia da boca em descoberta
súplica deste  profundo  apelo
dois  focos eminentes
 duas sedes que lutam tão companheiras
& esta minha materialidade passageira
fundida na tua materialidade
os meus sentidos que me condenam a ficar
nas minhas mãos demiurgas  nessa lentidão
as minhas mãos impolutas a rasgar  rotas em ti
as minhas mãos proletárias a construir  sentidos
& as minhas mãos indomáveis
as minhas mãos indomáveis
 no teu corpo


Poema e fotografia da autoria de Maria Andersen

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A                              interioridade,
mão                          longa
rica                           matéria
no                             do
gesto                         pensamento

       as palavras na mão
            na escrita
            da boca

Pintura e Poema da autoria de Aura Andersen(F.M)

Neste desvelo da noite

É nos teus olhos que se desatam os ventos
fragrâncias  que a noite estende para o dia
quando cresce desvairado  o olhar
nesse insólito ninho
onde nasce a minha sede de beber-te
espaço pressentido  dos teus dedos
grinalda   sossego              onde se fundem as almas
art-(i)-manha  das horas            neste dilúvio de letras
pólen  dos séculos                 em que me propago 
 ar em que me sentes                inteira
pálpebras abertas  pela noite -          insónia
dos meus olhos          flor rainha onde se esculpe m
as formas que ondulam         onde as palavras queimam 
nas tuas mãos coroadas de êxtase

clássicas parábolas  urdindo leis  pelo tempo
em que defraudo o coração
na língua – gem remota dos poetas
táctil ternura      tua presença
silabada agora  no alfabeto do poema
luz milenar  dos sóis        dentro do  olhar
onde tu cais  inteiro e súbito
na pele em que atravessa toda a memória 
por esse eixo do silêncio que nos escuta
bocas de tantas vidas   nos mesmos rostos
éden de nossas bocas      meu leme
a paisagem como um verso do saltério
de ardor  & eternidade
pianos tocando as fundas melodias
triunfo dos corpos                   nessa dança
cúpula de sóis             neste desvelo da noite
recinto do peito onde nascemos
nesse lógos  pulsar do prodígio
boca cosmos arrebatada              abrindo-se à imensidão
e aves a nascer em nós         fusão dos mundos
nesta          outra          infância
da vida inteira que se  ergue  geográfica  ao encontro do dia


Desenho(a carvão) e poema da autoria de Maria Andersen

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

“Pudera-quisesse”



Sobre a coluna mais alta escutar  a tua voz
Canto  das aves no seu voo
boca do desejo  - fome
palavras em que te deitas -  vive
exercício  inicial do poema em que pernoitas
música  abandonada  ao silêncio  do  coro
por esse vale  lentíssimo de te pensar –
tu
que tacteias  em mim os espaços mais secretos
o deserto que cultivo -  saudade
de mim-em-ti  repartida
nesse romper das horas em que a tinta nos afoga
 poro a poro os sentidos
ah          lentidão da mão onde o mar sobe
nesse  iridescente  sentir  da magnólia
sabor e nervo que a boca inteira procura
lugar despovoado …onde o regresso demora 
dos  gest-(os)-teus
vestido da tua boca com que vestes a minha pele
veias que são  livro                         sismo  dos sentidos
vulcão debruçado e ardente  na ponta dos dedos
cabeça ao redor de nós                 
nessa terra em que somos  vagarosamente
palavras licor a subir pela noite
como face  de Monalisa  

paixão de Hölderlin  &  Goethe
&  derrama-se assim a tua ausência
nessas marítimas paisagens onde as veias  ardem
e teus olhos de  quartzo
nas varandas dos meus olhos
ah         visita-me
enquanto não envelheço

& toma estas palavras cheias de medo
& derrama-te  em mim como um vinho
na tua ausência  maior                   na dor  mais densa

ah       lábios em que te chamo – ouro
em que te faço árvore & rio

que corre no leito de mim
para a foz de nós




Desenho e Poema da Autoria de Maria Andersen