segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ave insondável





Já fui outrora
uma estátua mordida
pelo esquecimento
já escrevi palavras inúteis
para falar de amor
na noite  onde os pássaros
 ferem a quietude


ah                 fugacidade das horas
onde soluçam os ecos das palavras

manancial  
                              o sangue

submetido ao tempo de uma chama
& as vozes                               lava inocente …

mas nunca o sol foi mais intenso
nem o mar esteve tão perto

& eu
                               pelo fundo vento do teu sopro
a romper paredes gastas
a rasgar pedaços velhos da história
a fixar a densidade da madrugada
sepultura da noite                   em que cerramos os punhos
a decapitar pedras                      

& o tempo                                             um  pacto de água &  fogo

& o teu olhar                 em que me desconcertas
                                           caminho em que te invoco
arca da aliança                             o ébrio alfabeto dos lábios
onde se ergue                               curva a curva o horizonte

“no princípio era o caos.
depois Gea,                a terra                    de amplo seio
e quantos imortais habitam
o nevado cume do Olimpo”

bigorna da alma             entrelaçada ao voo
tâmara do amor             as nossas bocas
& no coração                   recolhem- se  todas as estações
saga das tuas mãos na minha pele
palácio da minha língua a tua boca
& nossas águas talhadas pelo sol

alma         ave  insondável que atravessa o tempo

no fogo branco desta exacta página 




                                                                        Maria Andersen

Indizível - os lábios




Indizível
instante
a simetria
do beijo-
os lábios

fogo
sorvido
no peito

êxtase
na catedral
do corpo

Maria Andersen

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Poemato

Vou descendo pelo vestígio da casa
& assim aproo nos confins do verbo

ah    como corta e sangra

essa nudez 

eu

só a sós em ti
onde o tempo passa & eu fico

assim me despojo & concentro
no declive do verso

na lamina afiada da vida

nesse novelo em que desfio o tempo e a mim


mas

não me  peçam palavras avulso
nem   regra de prumo e de estilo
para fechar em alta o poema
só já aspiro a saber dividir-me a mim

em espanto          & canto           & contemplações

 
     Fotografia e poema de Maria Andersen

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A vida





A vida
é raiva
 é grito
 é peito
do poema

ardente
enleio
a fonte
a fronte
o ventre


latente
a semente
o rosto
o rastro
o resto



e logo
abaixo
 sento-me

o presente
 sente
o indomável
sentir

Poema e fotografia de Maria Andersen


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado.
Aí está: eis a única questão.
Para não sentirem o fardo  horrível do
tempo que verga e inclina para a terra, é
preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtudes, a
escolher  .  Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio,
sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou
desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vaga; à estrela; ao pássaro, ao relógio, a
tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a
tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que
horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o
relógio responderão:”É hora de
embriagar-se !  Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se ;
embriaguem-se sem descanso”. Com vinho,
poesia ou virtude, a escolher.

                                   Walt Whitman

Fotografia de Maria Andersen

sábado, 15 de janeiro de 2011

Os meus sentidos....



Mergulha
na noite suave do meu ventre
como um solitário buscador de ilhas
álacre esplendor da madrugada
flauta que  anuncia
o tempo sem mácula e sem uso

intimas pulsações dos meus sentidos
inclemente sede dum deserto

deixa-me

em teu universo fazer-te um grito
com a  ousadia da boca em descoberta
súplica deste  profundo  apelo
dois  focos eminentes
 duas sedes que lutam tão companheiras
& esta minha materialidade passageira
fundida na tua materialidade
os meus sentidos que me condenam a ficar
nas minhas mãos demiurgas  nessa lentidão
as minhas mãos impolutas a rasgar  rotas em ti
as minhas mãos proletárias a construir  sentidos
& as minhas mãos indomáveis
as minhas mãos indomáveis
 no teu corpo


Poema e fotografia da autoria de Maria Andersen

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A                              interioridade,
mão                          longa
rica                           matéria
no                             do
gesto                         pensamento

       as palavras na mão
            na escrita
            da boca

Pintura e Poema da autoria de Aura Andersen(F.M)