terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Língua no interior da pedra






Estou deitada no campo do pensamento,
numa espécie de deslumbre.

As vezes lavramos de ternura a vida
- é tão profundo entrar no sorriso,
& trazer os olhos cheios de alaúdes
no sitio exacto onde se deita a solidão

sou tantas vezes      uma selva inteligente

disfarçada de montanha & de paixão

ventre nu      chamando a língua no vício das palavras
matéria de mar em êxtase           no fogo do meio dia
corpo inteiro nesse movimento
& a boca mendiga & sedenta da tua
na febre do orgasmo                do suor                     do tacto
ramo de veias                 candelabro aceso onde nascem aves
             & pálpebras
                                & seda
                                           & línguas no interior da pedra
dos ombros onde se rasga a pressa

o grito                   o corpo                      o movimento inteiro


                                      

                                                                            Maria Andersen

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ave insondável





Já fui outrora
uma estátua mordida
pelo esquecimento
já escrevi palavras inúteis
para falar de amor
na noite  onde os pássaros
 ferem a quietude


ah                 fugacidade das horas
onde soluçam os ecos das palavras

manancial  
                              o sangue

submetido ao tempo de uma chama
& as vozes                               lava inocente …

mas nunca o sol foi mais intenso
nem o mar esteve tão perto

& eu
                               pelo fundo vento do teu sopro
a romper paredes gastas
a rasgar pedaços velhos da história
a fixar a densidade da madrugada
sepultura da noite                   em que cerramos os punhos
a decapitar pedras                      

& o tempo                                             um  pacto de água &  fogo

& o teu olhar                 em que me desconcertas
                                           caminho em que te invoco
arca da aliança                             o ébrio alfabeto dos lábios
onde se ergue                               curva a curva o horizonte

“no princípio era o caos.
depois Gea,                a terra                    de amplo seio
e quantos imortais habitam
o nevado cume do Olimpo”

bigorna da alma             entrelaçada ao voo
tâmara do amor             as nossas bocas
& no coração                   recolhem- se  todas as estações
saga das tuas mãos na minha pele
palácio da minha língua a tua boca
& nossas águas talhadas pelo sol

alma         ave  insondável que atravessa o tempo

no fogo branco desta exacta página 




                                                                        Maria Andersen

Indizível - os lábios




Indizível
instante
a simetria
do beijo-
os lábios

fogo
sorvido
no peito

êxtase
na catedral
do corpo

Maria Andersen

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Poemato

Vou descendo pelo vestígio da casa
& assim aproo nos confins do verbo

ah    como corta e sangra

essa nudez 

eu

só a sós em ti
onde o tempo passa & eu fico

assim me despojo & concentro
no declive do verso

na lamina afiada da vida

nesse novelo em que desfio o tempo e a mim


mas

não me  peçam palavras avulso
nem   regra de prumo e de estilo
para fechar em alta o poema
só já aspiro a saber dividir-me a mim

em espanto          & canto           & contemplações

 
     Fotografia e poema de Maria Andersen

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A vida





A vida
é raiva
 é grito
 é peito
do poema

ardente
enleio
a fonte
a fronte
o ventre


latente
a semente
o rosto
o rastro
o resto



e logo
abaixo
 sento-me

o presente
 sente
o indomável
sentir

Poema e fotografia de Maria Andersen


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado.
Aí está: eis a única questão.
Para não sentirem o fardo  horrível do
tempo que verga e inclina para a terra, é
preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtudes, a
escolher  .  Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio,
sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou
desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vaga; à estrela; ao pássaro, ao relógio, a
tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a
tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que
horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o
relógio responderão:”É hora de
embriagar-se !  Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se ;
embriaguem-se sem descanso”. Com vinho,
poesia ou virtude, a escolher.

                                   Walt Whitman

Fotografia de Maria Andersen

sábado, 15 de janeiro de 2011

Os meus sentidos....



Mergulha
na noite suave do meu ventre
como um solitário buscador de ilhas
álacre esplendor da madrugada
flauta que  anuncia
o tempo sem mácula e sem uso

intimas pulsações dos meus sentidos
inclemente sede dum deserto

deixa-me

em teu universo fazer-te um grito
com a  ousadia da boca em descoberta
súplica deste  profundo  apelo
dois  focos eminentes
 duas sedes que lutam tão companheiras
& esta minha materialidade passageira
fundida na tua materialidade
os meus sentidos que me condenam a ficar
nas minhas mãos demiurgas  nessa lentidão
as minhas mãos impolutas a rasgar  rotas em ti
as minhas mãos proletárias a construir  sentidos
& as minhas mãos indomáveis
as minhas mãos indomáveis
 no teu corpo


Poema e fotografia da autoria de Maria Andersen

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A                              interioridade,
mão                          longa
rica                           matéria
no                             do
gesto                         pensamento

       as palavras na mão
            na escrita
            da boca

Pintura e Poema da autoria de Aura Andersen(F.M)

Neste desvelo da noite

É nos teus olhos que se desatam os ventos
fragrâncias  que a noite estende para o dia
quando cresce desvairado  o olhar
nesse insólito ninho
onde nasce a minha sede de beber-te
espaço pressentido  dos teus dedos
grinalda   sossego              onde se fundem as almas
art-(i)-manha  das horas            neste dilúvio de letras
pólen  dos séculos                 em que me propago 
 ar em que me sentes                inteira
pálpebras abertas  pela noite -          insónia
dos meus olhos          flor rainha onde se esculpe m
as formas que ondulam         onde as palavras queimam 
nas tuas mãos coroadas de êxtase

clássicas parábolas  urdindo leis  pelo tempo
em que defraudo o coração
na língua – gem remota dos poetas
táctil ternura      tua presença
silabada agora  no alfabeto do poema
luz milenar  dos sóis        dentro do  olhar
onde tu cais  inteiro e súbito
na pele em que atravessa toda a memória 
por esse eixo do silêncio que nos escuta
bocas de tantas vidas   nos mesmos rostos
éden de nossas bocas      meu leme
a paisagem como um verso do saltério
de ardor  & eternidade
pianos tocando as fundas melodias
triunfo dos corpos                   nessa dança
cúpula de sóis             neste desvelo da noite
recinto do peito onde nascemos
nesse lógos  pulsar do prodígio
boca cosmos arrebatada              abrindo-se à imensidão
e aves a nascer em nós         fusão dos mundos
nesta          outra          infância
da vida inteira que se  ergue  geográfica  ao encontro do dia


Desenho(a carvão) e poema da autoria de Maria Andersen

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

“Pudera-quisesse”



Sobre a coluna mais alta escutar  a tua voz
Canto  das aves no seu voo
boca do desejo  - fome
palavras em que te deitas -  vive
exercício  inicial do poema em que pernoitas
música  abandonada  ao silêncio  do  coro
por esse vale  lentíssimo de te pensar –
tu
que tacteias  em mim os espaços mais secretos
o deserto que cultivo -  saudade
de mim-em-ti  repartida
nesse romper das horas em que a tinta nos afoga
 poro a poro os sentidos
ah          lentidão da mão onde o mar sobe
nesse  iridescente  sentir  da magnólia
sabor e nervo que a boca inteira procura
lugar despovoado …onde o regresso demora 
dos  gest-(os)-teus
vestido da tua boca com que vestes a minha pele
veias que são  livro                         sismo  dos sentidos
vulcão debruçado e ardente  na ponta dos dedos
cabeça ao redor de nós                 
nessa terra em que somos  vagarosamente
palavras licor a subir pela noite
como face  de Monalisa  

paixão de Hölderlin  &  Goethe
&  derrama-se assim a tua ausência
nessas marítimas paisagens onde as veias  ardem
e teus olhos de  quartzo
nas varandas dos meus olhos
ah         visita-me
enquanto não envelheço

& toma estas palavras cheias de medo
& derrama-te  em mim como um vinho
na tua ausência  maior                   na dor  mais densa

ah       lábios em que te chamo – ouro
em que te faço árvore & rio

que corre no leito de mim
para a foz de nós




Desenho e Poema da Autoria de Maria Andersen


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O POETA



Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida fora.
Tudo aquilo em que ponho afecto
fica mais rico e me devora


                      Rainer Maria Rilke

    Fotografia da autoria de Maria Andersen



LITANIA


                                                



  
              Trabalho fotografico de Maria Andersen



O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor de um fruto, o peso de uma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror;

são a grande razão, a única razão.


                              Eugénio de Andrade

REPOUSO


Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insectos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.

                                                     
                                                       Walt Whitman

Fotografia de Maria Andersen

MISTÉRIO

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.

Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita


                       Walt Whitman




  Fotografia da autoria de Maria Andersen

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

entrem...é meu amigo & vizinho...

Homenagem a Eugénio de Andrade

                                   

                    Vídeo e poema meus, em homenagem a Eugénio de Andrade

Os moinhos das tuas mãos oceânicas

Ah noite  longa do  olhar  em que te bebo
que posso fazer senão beber-te  os olhos nas linhas curvas das letras
manhã & noite                  & o pretexto  original de amar-te
abraçada a cada ângulo da tua boca
& tu cada vez mais brisa            mais poema                       mais alvorada
Delicias …em que floresces
Lábios  lentos no tambor do teu peito
Consolo de tantas horas onde as tuas mãos hesitam
Violino em que as palavras se orvalham
Nessa prece  do inverno que te volteia
Curiosidade dos dias intermináveis
& cardumes em nossas línguas
 nessa dança arrebatada dos teus braços invisíveis
como um leme ao redor de mim
& que vorazes  os pensamentos
portas abertas –
 para os moinhos das tuas mãos oceânicas
poema em que gemo
a desesperada ânsia dos deuses nesta hora
na vaga da vida Ariadne
a que me entrego
teus olhos em que o amor balbucia o colírio dos meus olhos
ai esta estranha dança em que te quero
baloiço do teu peito em que sorrio
Ave a cantar impregnada de música
& as sílabas deste poema – viagem
batalha do eterno  olhar
na lanterna da tua voz



Fotografia e Poema da autoria de Maria Andersen

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
[braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade*



    Fotografia da autoria de Maria Andersen