Em cada um de nós há dois seres. Os dois coexistem em nós, o do estado prosaico e o do estado poético. Ambos constituem o que somos.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
A Cesariny
Pelo azul do dia os teus olhos
arca de luz que se agita
lavraste ( com humano arado)
a fascinante geometria da vida
instrumento com que se rasga outro caminho:
corpo da criação que sangra - almo poeta
a sofrer o gume da vida
na exortação da palavra
poeta /sol que arde e não se extingue
& pelo enigma da vida
olhas a pomba de cal:
que
quebra entre os ventos
tens dezenas de asas na voz
& o mundo alio nos olhos -
(ó fuga em que me persigo)
menino poeta
que morres de tanta luz - à mingua doutro sol
sonho selado como a noite da sepultura
- aqui não brota puro
o amor sem a moeda –
moeda corroída que se multiplica
imagens de mil espelhos quebrados
dor de quem assim sente o deslumbrante fogo de ser
clareira essencial dos dias
tempo –
lugar em que te elevo
ao alto pedestal do coração.
Maria Andersen (in pelo Coração das coisas /2010)
O poema

O poema sempre foi um excluído
um rebelde
um indomesticado
mas eu que sou em mim própria exílio
não prendo a palavra ao sistema nem à clausura.
um rebelde
um indomesticado
mas eu que sou em mim própria exílio
não prendo a palavra ao sistema nem à clausura.
Fotografia a poema de Maria Andersen
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Princípio dos meus dias onde ainda somos clandestinos
Estou sentada diante do dia a norte do teu sangue
a olhar o escantilhão do tempo mapa insondável
rigorosa forma sobre a pele onde o amor se pronuncia
onde se entranha o cheiro das maças & toda a infância
& penso na inutilidade de pensar lugar onde te anuncias
a olhar a rua que começa em ti a ouvir o requiem de Mozart
lugar onde me invento & onde estou?,
a boca é sempre o primeiro instrumento do espanto
o olhar o alvoroço inteiro o fruto inviolado
& o teu silêncio é a palavra que não escrevo
subsolo em que me debruço os teus olhos iminentes
ah pudesse eu não ter limites
e ser como madrugada sabor intenso
a transformar-me aí na forma justa do corpo
deserto tão longínquo a saudade & a tua voz
onde perigosamente me deito como se fosse o regresso
apelo do tempo interminável na vigília das palavras
oh muro da desordem o pensamento
que nos pastoreia no fundo exausto da espera
erosão do corpo a que a lei nos ata
vírus lento da humanidade & destes versos por semear
amo por isso a primavera onde tudo se refaz
agora estás & não estás nos meus dias
& de noite mudas tudo de lugar
ai espada desta hora como uma sombra
na arquitectura perfeita & sensível dos sentidos
para onde a alma emigra dor de Édipo e minha dor
antiquíssima flauta o desassossego cúmplice do verbo
& nós
princípio dos meus dias onde ainda somos clandestinosPintura e Poema de Maria Andersen
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Língua no interior da pedra

Estou deitada no campo do pensamento,
numa espécie de deslumbre.
As vezes lavramos de ternura a vida
- é tão profundo entrar no sorriso,
& trazer os olhos cheios de alaúdes
no sitio exacto onde se deita a solidão
sou tantas vezes uma selva inteligente
disfarçada de montanha & de paixão
ventre nu chamando a língua no vício das palavras
matéria de mar em êxtase no fogo do meio dia
corpo inteiro nesse movimento
& a boca mendiga & sedenta da tua
na febre do orgasmo do suor do tacto
ramo de veias candelabro aceso onde nascem aves
& pálpebras
& seda
& línguas no interior da pedra
dos ombros onde se rasga a pressa
o grito o corpo o movimento inteiro
Maria Andersen
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Ave insondável
uma estátua mordida
pelo esquecimento
já escrevi palavras inúteis
para falar de amor
na noite onde os pássaros
ferem a quietude
ah fugacidade das horas
onde soluçam os ecos das palavras
manancial
o sangue
submetido ao tempo de uma chama
submetido ao tempo de uma chama
& as vozes lava inocente …
mas nunca o sol foi mais intenso
nem o mar esteve tão perto
& eu
pelo fundo vento do teu sopro
a romper paredes gastas
a rasgar pedaços velhos da história
a fixar a densidade da madrugada
sepultura da noite em que cerramos os punhos
a decapitar pedras
& o tempo um pacto de água & fogo
& o teu olhar em que me desconcertas
caminho em que te invoco
arca da aliança o ébrio alfabeto dos lábios
onde se ergue curva a curva o horizonte
“no princípio era o caos.
depois Gea, a terra de amplo seio
e quantos imortais habitam
o nevado cume do Olimpo”
bigorna da alma entrelaçada ao voo
tâmara do amor as nossas bocas
& no coração recolhem- se todas as estações
saga das tuas mãos na minha pele
palácio da minha língua a tua boca
& nossas águas talhadas pelo sol
alma ave insondável que atravessa o tempo
no fogo branco desta exacta página
Maria Andersen
Maria Andersen
Indizível - os lábios
Indizível
instante
a simetria
do beijo-
os lábios
fogo
sorvido
no peito
êxtase
na catedral
do corpo
Maria Andersen
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