sábado, 5 de fevereiro de 2011

Esta é a Forma Fêmea



Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu sinto-me  sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

sábado, 29 de janeiro de 2011

É verde a manhã dos teus olhos









É verde
a manhã dos teus olhos

meu 
regresso lento           a ti
pelo caminhos que percorro  sílaba a sílaba
invadindo esse vocábulo  da casa que se alimenta de ti

Eu
& as horas  que se recolhem ao longo da pele
na memória do movimento
província  (sempiterna)  do silêncio  
esse princípio do   tempo  sem becos
só criado de espanto        & de vida

há tantas  gargantas  gastas  por aí
tantos olhos  tristes  cerrados nas sombras
pelos cantos esquecidos das ruas


& nós aqui                   agora                       neste poder
 de palavras novas e lugares por descobrir

ah    tempo                                     sem remorsos de o ser
lugar absoluto das nossas mãos
como o são esses velhos discos de vinil
que ainda amamos escutar  pela lonjura das noites
pelo sossego ansiado do teu colo
concha das tuas mãos onde bebo
as delicias do teu ser

ah  como tudo nos pertence                
mesmo para lá do esquecimento
os olhos que nunca se afastam do fogo inicial
do sangue onde se rasga                       a fome                       a raiva
terra nossa  até onde os anjos  descem

Eu
regresso a ti meu amor
chão de éden coberto de sóis  onde me deito
a morder a maça do amor no teu corpo
terra dos meus dias
& grito agora meu amor                            diante do mar
toda a fogueira do tempo
no céu lento de nós                              
 lençol onde nos vencemos
oceano                            onde toda a luz se desbrava
pelo  verbo  matinal     da nossa idade



Fotografia e Poema de Maria Andersen

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Formas ...da minha arte





                                                   Fotografias de Maria Andersen

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Cesariny






Pelo azul do dia     os teus olhos
arca de luz que  se agita

lavraste ( com humano arado)
a fascinante geometria da vida

instrumento  com que se rasga outro caminho:
corpo da criação que sangra - almo poeta
a sofrer o gume da vida
na exortação da palavra

poeta /sol que arde e não se extingue
& pelo enigma da vida
olhas a pomba de cal:
que
quebra entre os ventos

tens dezenas de asas na voz
& o mundo alio nos olhos -
(ó fuga em que me persigo)
menino     poeta
que morres de tanta luz - à mingua doutro sol
sonho selado  como a noite da sepultura
- aqui não brota puro
o amor sem a moeda –
 moeda corroída  que se multiplica
 imagens de mil espelhos quebrados
dor de quem assim  sente o deslumbrante fogo  de ser
clareira essencial dos dias
tempo –

lugar em que te elevo
ao alto pedestal do coração.

  Desenho a giz e marcador preto sobre cart/cinza
    Maria Andersen (in pelo Coração das coisas /2010)

O poema


 
 
 
 
 
 
 
 
O poema sempre foi um excluído
um rebelde
um indomesticado
mas eu que sou em mim própria exílio
não prendo a palavra ao sistema nem à clausura.
 
 
 
 
Fotografia a poema de Maria Andersen

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Princípio dos meus dias onde ainda somos clandestinos




Estou   sentada diante do dia  a norte do teu sangue
a olhar o escantilhão  do tempo                         mapa insondável
rigorosa forma   sobre a pele   onde o amor se pronuncia
onde se entranha  o cheiro das maças             & toda a  infância
& penso   na inutilidade  de pensar           lugar onde te anuncias
 a olhar a rua que começa em ti                a ouvir o requiem de Mozart

lugar onde me invento                  & onde estou?,           

a boca é sempre  o primeiro instrumento do espanto
o olhar                o alvoroço inteiro                      o fruto inviolado

& o teu silêncio  é a palavra que não escrevo

subsolo em que me debruço                    os teus olhos iminentes

ah       pudesse eu não ter limites
e ser como madrugada                   sabor  intenso
a transformar-me                         na forma justa  do corpo
deserto  tão longínquo                  a saudade         & a tua voz

onde perigosamente me deito como se fosse o regresso     
 apelo do tempo interminável                na vigília das palavras

oh muro da desordem                   o pensamento
que nos pastoreia no fundo  exausto da espera
erosão do corpo  a que a lei nos  ata
vírus lento da humanidade    & destes versos por semear
amo por isso a primavera onde tudo se refaz
agora estás & não estás nos meus dias 
& de noite mudas tudo de lugar

ai espada desta hora como uma sombra
na  arquitectura  perfeita  & sensível dos sentidos
para onde a alma emigra              dor de   Édipo          e minha dor
antiquíssima  flauta                  o desassossego cúmplice  do  verbo

& nós
princípio dos  meus dias onde ainda somos clandestinos

                                                     

                                                                     Pintura e Poema de Maria Andersen

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Língua no interior da pedra






Estou deitada no campo do pensamento,
numa espécie de deslumbre.

As vezes lavramos de ternura a vida
- é tão profundo entrar no sorriso,
& trazer os olhos cheios de alaúdes
no sitio exacto onde se deita a solidão

sou tantas vezes      uma selva inteligente

disfarçada de montanha & de paixão

ventre nu      chamando a língua no vício das palavras
matéria de mar em êxtase           no fogo do meio dia
corpo inteiro nesse movimento
& a boca mendiga & sedenta da tua
na febre do orgasmo                do suor                     do tacto
ramo de veias                 candelabro aceso onde nascem aves
             & pálpebras
                                & seda
                                           & línguas no interior da pedra
dos ombros onde se rasga a pressa

o grito                   o corpo                      o movimento inteiro


                                      

                                                                            Maria Andersen