sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

no útero da palavra



é no útero da palavra
que me encontras
dolorosa  como as vagas
onde o mar se encolhe até ao centro de si
letra a letra inundo a noite
até  que regresse a manhã
ourada nos planaltos –
partitura de nossos olhos
fortaleza  de rosa búlgara
a  alma

& esta tarde ansiosa  fermentando o pensamento
& tu iluminação  
de instante a instante
por este acaso das horas
que abraça o mundo

tu
a única voz de luz que ameniza   o tempo
desta bastarda distância
de nós



 Pintura e Poema  de Maria Andersen

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

sangue dentro do sangue



Sangue dentro do sangue
clandestino sentido da voz
o tempo de um poema
que me fustiga a alma

espelho que os dias me oferecem tão cheio de palavras –
esta imanência oculta do grito que eu respiro
& esta inquietude que vem como um manto
onde me afundo a ascendo
nos meus olhos interiores &  absortos
& a alvura do verbo como um corcel

ai o estrondo do tempo implacável
as amendoeiras em flor  & inocentes
sobre o mês onde o âmbar se prolonga
& as tuas mãos com aroma a cigarro
& os violinos que oiço por esta hora tão breve
em que demoras & estás &  te deténs

as paredes
 só as paredes  do interior do  tempo sabem de nós –
diamante que em nossos olhos trazemos guardado
pelas linhas deste verso em que atravesso
esse
 ele
tempo
como o uivo dos séculos
ai as veias como queimam nesta tarde
& a chave deste mar ignoto  encerrado em mim
quem a tem?

tu

língua
nosso pedaço de céu
esse  horizonte em que te ergues & me ergo
ao suplicio do amor

ah                   sigiloso sentir
sangue dentro do  sangue
minha gota de impulso que corre secretamente para ti

mas esse é o gume que me volteia de fogo
ai espada desta telúrica matéria
frágil matéria / matéria mater .
 firmamento do ser
em somos
só eu
só tu
sangue dentro do sangue


                                                             Maria Andersen

Limbu imperfeito




Quem sou
se não me sei mais do que isto
neste perfil prisioneira
limbu imperfeito
com um eco de memória
& um corpo desenhado na palavra
& os meus olhos que se tornam nela

                                      Maria Andersen

domingo, 6 de fevereiro de 2011

José Mateus Pereira Neto

 

 

José Mateus Pereira Neto

(poeta brasileiro, natural de São Paulo em 1965, ainda inédito em livro)


AGORA


Agora angariar augúrios
& bobagens do tipo.
Agora saber da solidão
& não se espantar.

Agora finalmente conhecer-se
& estranhar-se.
Agora saber do Outro
& reconhecer-se.

Agora que sou muitos
& nenhum
Ao mesmo tempo.

Agora q o corpo deixou d ser templo
& pausa:
Foder as fronteiras.



SOU SEU FILHO


Autobiografia é não escrever
O último capítulo.

Viver agrega, agracia
Separa e mata.
Viver revive.

O tempo esquece-se da dor
Mas a cada novo doer
Lembrar é inevitável.

Assim também a alegria
Recua, recusa, foge e dá.
Sei (sabemos) o q fazer da dádiva?

Não transijo nem brigo
Observo, participo; & mordo.

Dente em carne tenra e crua, e nua
D novo a vida é feminina
& eu sou seu filho.

                                                        Fotografia de Maria Andersen Poemas José Mateus Pereira Neto*


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Esta é a Forma Fêmea



Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu sinto-me  sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

sábado, 29 de janeiro de 2011

É verde a manhã dos teus olhos









É verde
a manhã dos teus olhos

meu 
regresso lento           a ti
pelo caminhos que percorro  sílaba a sílaba
invadindo esse vocábulo  da casa que se alimenta de ti

Eu
& as horas  que se recolhem ao longo da pele
na memória do movimento
província  (sempiterna)  do silêncio  
esse princípio do   tempo  sem becos
só criado de espanto        & de vida

há tantas  gargantas  gastas  por aí
tantos olhos  tristes  cerrados nas sombras
pelos cantos esquecidos das ruas


& nós aqui                   agora                       neste poder
 de palavras novas e lugares por descobrir

ah    tempo                                     sem remorsos de o ser
lugar absoluto das nossas mãos
como o são esses velhos discos de vinil
que ainda amamos escutar  pela lonjura das noites
pelo sossego ansiado do teu colo
concha das tuas mãos onde bebo
as delicias do teu ser

ah  como tudo nos pertence                
mesmo para lá do esquecimento
os olhos que nunca se afastam do fogo inicial
do sangue onde se rasga                       a fome                       a raiva
terra nossa  até onde os anjos  descem

Eu
regresso a ti meu amor
chão de éden coberto de sóis  onde me deito
a morder a maça do amor no teu corpo
terra dos meus dias
& grito agora meu amor                            diante do mar
toda a fogueira do tempo
no céu lento de nós                              
 lençol onde nos vencemos
oceano                            onde toda a luz se desbrava
pelo  verbo  matinal     da nossa idade



Fotografia e Poema de Maria Andersen

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Formas ...da minha arte





                                                   Fotografias de Maria Andersen