sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Há Palavras que Nos Beijam







Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso







que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E. E. Cummings

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

é de noite que a corporeidade é mais táctil





é de noite meu amor


 é de noite que a vida vem
como um filme antigo ao pensamento
e nos penetra todos os impulsos primordiais
nesse poder inóspito do tempo
onde nascem verdades de tantas bocas

& nós aqui                         minúsculos credos da vida
de olhos impotentes e pasmados nesse crepúsculo das horas
rebanhos de veias que nos aquecem o pensamento
nesse ramo de razões com que defendemos as causas
que tantas vezes nos fecundam a raiva e a comoção





é de noite meu amor
que choramos os silêncios magoados
contra a carne
nesses gemidos marinhos
como se  o teu peito fosse  uma harpa onde eu canto
&  deslizo pela nudez do teu rosto
até sentires na boca o sabor do fruto  que comi

é de noite meu amor
que a luz se faz mais clara  pelo cálice
em que nos extenuamos em gestos
 até exorcizar todas as nossas carências

é de noite meu amor
que tacteamos  por dentro
as distâncias mínimas do abandono
nesse rigor do sol nos recantos  do corpo
porque nos teus braços  sou mais eterna
mais brisa                  mais ventre                 mais música
e tu  meu amor
porque me apeteces  inteiro para escrever corais sobre os teus dedos 
onde se solta o esplendor da manhã
onde  eu procuro o aroma da infância
no denso arvoredo dos teus olhos

é de noite meu amor
que é mais táctil a corporeidade
& mais vibrante o vinho dos mil clamores
pela unidade do ser(mos) espelhos efémeros
& eu amor
que agora me adenso em ti 
pelo espesso lado de dentro das horas
de nós – breve permanência  que plantamos aqui nas palavras
a pulsar verões  nessa nossa omnipresença



desenho e poema de maria andersen

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

no útero da palavra



é no útero da palavra
que me encontras
dolorosa  como as vagas
onde o mar se encolhe até ao centro de si
letra a letra inundo a noite
até  que regresse a manhã
ourada nos planaltos –
partitura de nossos olhos
fortaleza  de rosa búlgara
a  alma

& esta tarde ansiosa  fermentando o pensamento
& tu iluminação  
de instante a instante
por este acaso das horas
que abraça o mundo

tu
a única voz de luz que ameniza   o tempo
desta bastarda distância
de nós



 Pintura e Poema  de Maria Andersen

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

sangue dentro do sangue



Sangue dentro do sangue
clandestino sentido da voz
o tempo de um poema
que me fustiga a alma

espelho que os dias me oferecem tão cheio de palavras –
esta imanência oculta do grito que eu respiro
& esta inquietude que vem como um manto
onde me afundo a ascendo
nos meus olhos interiores &  absortos
& a alvura do verbo como um corcel

ai o estrondo do tempo implacável
as amendoeiras em flor  & inocentes
sobre o mês onde o âmbar se prolonga
& as tuas mãos com aroma a cigarro
& os violinos que oiço por esta hora tão breve
em que demoras & estás &  te deténs

as paredes
 só as paredes  do interior do  tempo sabem de nós –
diamante que em nossos olhos trazemos guardado
pelas linhas deste verso em que atravesso
esse
 ele
tempo
como o uivo dos séculos
ai as veias como queimam nesta tarde
& a chave deste mar ignoto  encerrado em mim
quem a tem?

tu

língua
nosso pedaço de céu
esse  horizonte em que te ergues & me ergo
ao suplicio do amor

ah                   sigiloso sentir
sangue dentro do  sangue
minha gota de impulso que corre secretamente para ti

mas esse é o gume que me volteia de fogo
ai espada desta telúrica matéria
frágil matéria / matéria mater .
 firmamento do ser
em somos
só eu
só tu
sangue dentro do sangue


                                                             Maria Andersen

Limbu imperfeito




Quem sou
se não me sei mais do que isto
neste perfil prisioneira
limbu imperfeito
com um eco de memória
& um corpo desenhado na palavra
& os meus olhos que se tornam nela

                                      Maria Andersen

domingo, 6 de fevereiro de 2011

José Mateus Pereira Neto

 

 

José Mateus Pereira Neto

(poeta brasileiro, natural de São Paulo em 1965, ainda inédito em livro)


AGORA


Agora angariar augúrios
& bobagens do tipo.
Agora saber da solidão
& não se espantar.

Agora finalmente conhecer-se
& estranhar-se.
Agora saber do Outro
& reconhecer-se.

Agora que sou muitos
& nenhum
Ao mesmo tempo.

Agora q o corpo deixou d ser templo
& pausa:
Foder as fronteiras.



SOU SEU FILHO


Autobiografia é não escrever
O último capítulo.

Viver agrega, agracia
Separa e mata.
Viver revive.

O tempo esquece-se da dor
Mas a cada novo doer
Lembrar é inevitável.

Assim também a alegria
Recua, recusa, foge e dá.
Sei (sabemos) o q fazer da dádiva?

Não transijo nem brigo
Observo, participo; & mordo.

Dente em carne tenra e crua, e nua
D novo a vida é feminina
& eu sou seu filho.

                                                        Fotografia de Maria Andersen Poemas José Mateus Pereira Neto*