quinta-feira, 8 de setembro de 2011

trago palavras no olhos penduradas à luz de qualquer vento



 
sou esta sendo algo mais que não sei dizer 
trago palavras no olhos penduradas
 à luz de qualquer vento
é tarde -  e as horas são um colar ao redor da vida
feito de pedraria que se quebra contra os dedos –
o tempo corre sem ter pernas
como corre a serpente agarrada à terra
carpindo mágoas – ao redor da cabeça
como estrelas rotas a verter  luz
sou isto
&  aquilo que aperto dentro da boca
nessa dança louca à flor da pele
onde as águas agonizam presas ao ventre –
tenho nos olhos brisas reunidas
nas veias poemas a arderem  como candeias –
inquietas rosas nas línguas que a sede gera
& mordo a seiva em que se desfaz a solidão
& os dedos secam  como se estivessem tristes
como se os braços doessem de me apertar o peito
& são estas coisa vivas & mortas
que me amordaçam em plena rua de mim mesma


quebra-se o pensamento quando o cão ladra
a tarde  ergue-se em repouso no cabelo
onde as luas adormecem


maria andersen
Digo dos teus olhos a nascente –
uma árvore povoada de verde quietude a recolher versos
 
 
maria andersen

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

multiplique (Dimi Éter)

 
 
 
 
 
só os corações é que somam
são as cabeças que dividem
multiplique isto por dois
não há o que subtrair
 
 
 
Dimi Éter

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

PELO TEMPO CRIADOR









 
Dentro dos meus olhos
“onde ninguém suporia”
há uma mesa cheia de livros
onde as palavras se entrelaçam
& ao centro um busto de homem
onde os olhos contradizem
todas as regras

em suas mãos celebra-se um poema
pelo tempo criador
deste silêncio:
a vida



 
Maria Andersen

no thank`s (Dimi Éter )

 
 
 
 
 
no thanks
jamais será
como antes
nem tente
quero o de sempre
i' drink and eat
e no fogo
acalmo e salvo
o que puder da vida
nem que seja um palmo
de partida
na hora da chegada

Grito ( Dimi Éter)





ultimamente não tenho escrito
grito naturalmente

naturalmente não tenho escrito
grito ultimamente

tenho escrito naturalmente
ultimamente não grito

o tempo




Ah se eu pudesse descer
 palavra por palavra até ao teu coração mas a cada passo paro para sentir a pausa do pensamento – nunca sabemos de que matéria é feito o olhar
dentro de nós não há paredes
apenas o verbo essencial
o deslumbramento…
& eu, escrevo por conta própria
este canto imperfeito
& lanço poemas como quem atira sementes –
à terra: não à minha, mas à tua
& é assim que as palavras ficam mendigas
& eu tomo-as pelo que são: indefesas como eu
outras vezes um gérmen de plenitude
eu podia dar-te este sopro vital
tão vital como o sopro que te deu Deus ao criar-te
mas como posso ser agasalho
se as vezes eu própria tenho frio
ah, trago a minha voz sedenta de te nomear
mas da mesma forma inocente
como se come um fruto
contigo no meu sentido
sentindo a tua ausência
as palavras nascem como uma criança
com as mesmas dores e a mesma ânsia
em espasmos de verbos
sobre a pele e os músculos –
os da alma
& gemidos contidos de dor & alegria
nasce a palavra como nasce a vida
& o dia ilumina-se de grande e precioso
não forces nunca a palavra
não lhe dês o peso de outro sentido que não este
deixa-o crescer assim fulgente como a aurora
deixa que aconteça assim como um lume leve
donde vem a força do clarão
que há-de queimar até ao fim a nossa solidão
a noite leva-me pela mão
até ao interior das horas – das tuas e das minhas
e como um rio o meu coração desce
ao leito do pensamento
& a água, a intima água
degrau a degrau sobe ao páramo da luz
onde as palavras nos doem de tão fundas
O poema é o repto eterno do instante
entrando pela alma
noite adiante interceptada e solta de madrugada
e fica em mim a duvida se cativo ou sou cativa
ah o tempo
é como uma lamina que passa e corta
& sobre o rosto deixa lavradas
tantas perguntas sem respostas
tantas feridas juntas a doer

a vida é sempre um livro inacabado
de tão inteira ser
de tão exposta à volúpia da mão e do seu fogo
onde o verbo arde tão dentro –
lugar de pássaros
e flores e gente –
eu quero envelhecer assim como uma vidente
que sabe onde moram os tesouros
- assim nos toca a vida
de pura e transparente
como a grande madrugada prometida
onde não há nenhum vestígio de impureza
onde eu percorro o tempo apaixonadamente