Podia da sede dizer-te a avidez
da fome dizer-te a fartura
do olhar dizer-te a distância
do tacto o sentir da matéria
do corto inteiro a forma & a queda
ou então dizer-te coisa simples
como ir por aí
a desenhar na areia palavras cruzadas
um jogo de murmúrios que nos agarram o peito
gestos que as mãos pressentem nesta idade
em que arde o deslumbre junto aos olhos
o tempo geme uma saudade
vício das fontes - o corpo ausente
& há tanto mar sonhado nas nossas mãos
tantas viagens pelas estações quentes
até que o amor amadureça
& alimente a fecunda terra das nossas bocas
maria andersen
Em cada um de nós há dois seres. Os dois coexistem em nós, o do estado prosaico e o do estado poético. Ambos constituem o que somos.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
ventre nu chamando a língua
estou deitada no campo do pensamento,
numa espécie de deslumbre.
as vezes lavro de ternura a vida
- é tão profundo entrar no sorriso,
e trazer os olhos cheios de alaúdes
no lugar onde se deita a solidão
sou como uma selva inteligente
ventre nu chamando a língua
e a boca mendiga
maria andersen
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
alguma coisa acontece nas mãos ao som da luz
não compreendo senão esta vontade de escrever a vida dos meus sentidos
e escrevo para ir ao encontro de qualquer outro lugar
faz-se noite e os meus olhos são enormes e profundos
maria andersen
o olhar a redondilha da luz o fôlego
o tropel dos passos as ruas a palavra
o arquipélago o poema
assim viajo no tempo
assim faço e desfaço o movimento
o ar a voz nocturna o gesto a derramar-se
a ânsia o verbo
a sintaxe da penumbra
a lua o papel a boca a partitura
a noite a morder setembro no rio
maria andersen
acordei a derramar-me junto à janela com os goivos a vestirem-me os poros
a gruta o fogo as flores de chuva inaugurais
mariposas abraçando o mundo
os olhos
as nossas mãos meninas na minúcia do sonho
goiabas maduras na boca –
abelhas na língua a colher mel
& um mundo em voo ao redor do olhar como andorinhas
que atravessam oceanos & memórias
aí subimos como se fossem baloiços
estrelas nuas & o tempo no jardim de William Blake
o amor & eu
metade ventre metade sopro metade fogo
tu metade coluna metade carne metade céu
& nós sete pétalas - o mundo arfando-nos na pele
índia fronte onde sou maça perto da boca
rua afagando o tempo da matéria
tu torre constelada a sobrepostas vozes quase corpo
assim se penetram os ventos a alma os rios
assim o silêncio é gemido que cresce da terra
exílio azul onde soluçam as sombras pelos sete sóis
geometria de Goethe em cada letra como uma face revelada
& todas as bocas dizem o teu nome
& cada luz desce a prumo no meu corpo onde implodem anjos
única mão de luz talhando os dias
acordei a derramar-me junto à janela
a bicicletar palavras na atlântica luminosidade da flauta
com os goivos a vestirem-me os poros
silêncio de estatuas onde se enrodilham frases inteiras
estamos sentados no tempo
& olhamos por dentro os poemas de Whitman no empedrado das horas
onde o leite da figueira seca & tu dobras-te a cantar manhãs
há tanto tempo que somos 1 numa espécie de sotaque
templos incendiados no amor
no chão on the rock rasgado sem liturgias
à flor da língua do sabre do nome
maria andersen
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
tardam-nos os séculos na poesia
a tarde vai e vem no seu andar antigo
o corpo de terra e cal
demora-se no lento vapor das sombras
& tudo é outra coisa –
o silêncio de que sou feita
os limites fixos a que eu desobedeço
o vomito da ordem ao dobrar a esquina
a corda tensa dos códigos onde se morre de surdez
os vocábulos que se refugiam no poema
os quartos vazios onde as paredes gritam
& nós tão subterrâneos
gememos ladrilhos nas ruas
& de hora em hora somos espelhos quebrados contra o tempo
o sangue é a cor do enigma
das letras pintadas no papel
a felicidade muda entre a incandescência das paredes gastas
somos cansados gnomos do tempo
pedaços minúsculos de gente a esfarrapar-se contra a miséria
tardam-nos os séculos na poesia
a loucura ri do engano
a mão esquece o encontro da outra mão
a boca continua a polir metais caídos ao som de qualquer ideia
tudo se converte noutra coisa
a casa está vazia
& eu continuo criança profunda & perdida
maria andersen
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
trazemos da viagem cantos desesperados que nos gravitam o peito
sou esta foz dos séculos
pastoreio-me nas horas
e crio haste junto aos pés – como raízes
a terra pesa no corpo como um sudário
o céu está ao contrário – os gritos soam para dentro
os ouvidos são rosas fechadas sobre si
& as horas teias labirínticas onde se colhem paisagens
estou sobre cada instante
a olhar em arco a menina dos olhos que me cresce no poema
as mãos são feitas destes gestos onde já alguém noutros gestos se perdeu
trazemos da viagem cantos desesperados que nos gravitam o peito
a boca a tremeluzir de estrelas na solidão de todas as mortes
o fogo é esse cimo da vida onde nos erguemos com aroma a pinheiros mansos
na ânsia de fazer ninhos entre as letras à boca do vento
foge-me a alma em cada espanto
em cada língua cheia de cantos
em cada silêncio teu em que me verto em que sou pássaro trepando as velhas heras
a vida – sempre um ocupado refúgio de nós mesmos
maria andersen
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