Em cada um de nós há dois seres. Os dois coexistem em nós, o do estado prosaico e o do estado poético. Ambos constituem o que somos.
domingo, 18 de março de 2012
Postscriptum
Postscriptum
"... apercebo o lume dum coração antigo e simples
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter...
... aqui deixo o espólio daquele cuja vida
é cintilação de lugares nítidos...
(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)
... tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar...
... mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite... talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou...
... vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo... "
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter...
... aqui deixo o espólio daquele cuja vida
é cintilação de lugares nítidos...
(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)
... tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar...
... mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite... talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou...
... vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo... "
Al Berto
sábado, 17 de março de 2012
"Se eu te dissesse de todos os imponderáveis plausíveis"*
a voz é um espelho fundo de palavras. o riso um campo arremessado da infância e as laranjas sóis que ainda me alimentam os olhos. corro pelas encostas da alma a dar leveza ao corpo onde me gero. trago nos dedos cinzéis afivelados às letras e os pés navegantes na agudeza das páginas pelo banco da memória onde frios nos albergamos aos colarinhos das impressões. tenho este furor de ir pelos caminhos ainda por abrir, deixo neles parques imensos, clareiras de sentidos, onde tão poucos sabem ir. tenho esta loucura de viver os interstícios do tempo todos dentro de mim. singram-me nas mãos exércitos de palavras onde o tempo é um mendigo deitado sobre os beirais a esconder-se entre o espanto onde me perpétuo à raiz do que digo. tudo isto é uma ocupação habitada de irremediáveis marés . tantos filmes nos circulam pelos olhos, tantas suburbanas vozes num monólogo de coisas inúteis , poemas interditos entre uma dúzia de letras. nem todo o azul é céu. nem toda a voz é apelo ou canto ou indomável abandono. contigo vou à mesma hora aprender o lirismo das ruas calcetadas de lua e sobra-nos prazo ao tempo destas palavras em que o digo. é este o transito do texto, as perguntas a que não respondo pondo vírgulas na epiderme do gesto que só a ti levo. estamos sempre entre duas entradas e duas saídas franjadas de nós.
maria andersen
*( Eduardo Pitta)
sábado, 10 de março de 2012
“ A vida é um novelo que alguém emaranhou!"
Tenho por dentro alamedas e rios abandonados a cada pensamentos que escrevo. Pensar tem certos abandonos. Noites intermináveis com sol pelas esquinas. As palavras são certas vezes como selvas sem luar, completamente às escuras. É azul contra azul e juncos tão perto do corpo. Silhuetas separadas do gestos como estátuas descarnadas. Finjo que choro no meu próprio regaço, como num palácio ancestral com pasmos tardios, risos que a saudade trás aos lábios como begónias abandonadas. A cada letra visito-me, em cada olhar penetro-me de exterior e tudo é de me sentir de mãos dadas com o que não digo. Sei isto… e poucos mais que isto. Sentir-me leva anos de secura e bebedeiras de livros lidos e mal escritos. Coam o sol no papel e nada mais sobra sequer da sombra enjaulada por não haver sol. Há quem diga que é tarde para ser hoje e que ouvir as horas é meio dormir ao som de nada.
Dizem,
que
“ A vida é um novelo que alguém emaranhou!" *(1)
maria andersen
*(1) Fernando Pessoa
sábado, 11 de fevereiro de 2012
agora
agora que as palavras são ruas invertebradas
lugares domesticados
agora que o exílio nos envolve os pés
agora que o vício nos sabe a náusea
agora que o dia se acaba
agora que o crepúsculo é vidro
agora que o medo é lirismo
que o corpo é distância
que fome é mar que o cais é geometria
agora que o prazo não se prorroga
que a lama é gelo que o riso é fogo que a boca é cidade
agora que os pássaros desertam
que as crianças já não brincam que a razão não existe
agora que o orgasmo não se repete que a hora é uma passagem
que o homem está de coronha em riste
agora que o que se diz por aí é inútil
que as estatuas são ambulantes que as vozes são multidão
agora que a memória nos traí que a lâmpada se apaga
que o acaso é nocturno
agora que os jacarandás estão maduros
agora que a mesa foi posta
agora
que a saliva é pretexto que as mãos são a história
que a pólvora rebenta em nós
agora que eu sou tempestade que sou tempo e solidão
agora que as nascentes secam que eu te invoco que a fuga é de Bach
agora que o litoral é aqui agora que eu sou selva inóspita
que o corpo é deserto que a sede é terra por habitar
agora que o vértice é o beijo que os dias são liturgia
que os poemas são as sobras de luz que nos restam
agora
que o ritos são veleidades
que a pele é mapa que a pátria é continente que o discurso é estilhaço
agora que a pedra é limiar que a hora é deriva que o nascer é foz
agora que o ardor é voz que a rua é calada que o sino é sentido
agora que a folha é carne que a parede é pão
que a penumbra é mel que teu olhar é menino
agora que o desejo é vidro moído que as lágrimas são lago
agora que a estrada se aparta e perfila
agora
é este o alto risco
maria andersen
sábado, 28 de janeiro de 2012
eu sou o solitário nome
impulso de ser flor
de ser cereja madura
de ser água e brisa
de ser cereja madura
de ser água e brisa
e sombra a que te abrigas -
fogo do peito que em mim alastra
desassossego desta hora
fogo do peito que em mim alastra
desassossego desta hora
o tempo que não tenho
a boca que mordo por dentro
neste sussurro do silêncio
a boca que mordo por dentro
neste sussurro do silêncio
e o teu rosto como relâmpago
jóia de delírio que me consome
jóia de delírio que me consome
eu sou o solitário nome
o solitário corpo que se divide
esquecido de mim
as horas que se adensam
o solitário corpo que se divide
esquecido de mim
as horas que se adensam
a espera que me fustiga de saudade
e este pulsar do tempo
e eu deserto e oásis
e este pulsar do tempo
e eu deserto e oásis
rebelde e clandestina
a corda desatada do violino
a brancura das folhas
a corda desatada do violino
a brancura das folhas
em que me deito e me afundo
e este tempo todo em que me escrevo
maria andersen
o corpo afivelado a ti nesse vício crepuscular - a fome onde tudo deflagra sempre à mesma hora
moreia do tempo em que estiolo
sobre esse azul a que me recuso
leis a contra gosto como um restolho antigo
o dia memória - uma manta estendida ao sol
a luz pendurada à porta do tempo a boca intacta
pássaro & meia dúzia de linhas diante do caminho
& o olhar que se cruza na palma das mãos
frases imediatas que escrevo pela eterna inutilidade dos que só dizem
letras como silhuetas num patchwork de vozes
sobre a alma com palavras em debrum
as horas cajadadas aos ombros
num prêt-a-age a tropeçar no pós moderno
o resto - um vagabundo pelas ruas em desalinho
gritos de glam rock - gestos anteriores a nós
poemas underground - anos emurchecidos
poemas sem preconceitos - rappers em cada esquina
cigarros entre os dedos – as bocas tristes
paredes brancas como náuseas
& muros new look às horas em que as palavras contestam
violinos & tachas cravadas na pele a cair no limiar do sangue
o corpo afivelado a ti nesse vício crepuscular
- a fome onde tudo deflagra sempre à mesma hora
couture à deriva & filósofos pelas ruas com livros de caxemira rota
slogans “ faça você mesmo” a oriente dos sentidos
o alvo que sobra aos atilhos a espartar o lirismo
o techno romance pop & o acto de nascer
a guerra dentro da paz à deriva
esboço de poeiras em que se adormece
labirinto onde as cidades se reúnem à mesma distância
étnica compilação das matérias no fio da navalha
begónias entre os sexos em transito - paixões por repetir
forma in colour de interpelar os tempos
publishers que nos confundem à boca dos canhões
& eu na lonjura do tempo filha de mil almas
neste lugar de ninguém & em contra corrente
maria andersen
maria andersen
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