domingo, 25 de março de 2012

Uma Certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny, in "Pena Capital"

a brisa corre junto à janela onde o dia transborda de sede

há aqui a incandescência das paredes gastas


fico sentada 
criança profunda  
perdida 
entre a memória




há aqui paredes que cantam

e as portas são eternas

·         fotografias e texto de maria andersen

domingo, 18 de março de 2012

Excellent!

"Small Metal Gods "- pura poesia


Postscriptum




Postscriptum 

"... apercebo o lume dum coração antigo e simples
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter...
... aqui deixo o espólio daquele cuja vida
é cintilação de lugares nítidos...

(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)

... tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar...
... mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite... talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou...

... vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo... "


Al Berto

sábado, 17 de março de 2012

"Se eu te dissesse de todos os imponderáveis plausíveis"*

a voz é  um espelho fundo de palavras. o riso um campo arremessado da infância e as laranjas sóis que ainda me alimentam os olhos. corro pelas encostas da  alma  a dar leveza ao corpo onde me gero. trago nos dedos cinzéis afivelados às letras e os pés navegantes na agudeza das páginas pelo banco da memória onde frios nos albergamos aos colarinhos das impressões. tenho este furor de ir pelos caminhos ainda por abrir, deixo  neles parques imensos, clareiras de sentidos, onde tão poucos sabem ir. tenho  esta loucura de viver os interstícios do tempo   todos dentro de mim. singram-me nas mãos exércitos de palavras  onde  o tempo é um mendigo deitado  sobre os beirais  a esconder-se entre o  espanto onde me perpétuo à raiz do que digo. tudo isto é uma ocupação  habitada de irremediáveis marés . tantos filmes  nos circulam pelos olhos, tantas suburbanas vozes num monólogo  de coisas inúteis , poemas interditos entre uma dúzia de letras. nem todo o azul é céu. nem toda a voz é apelo ou canto ou indomável abandono. contigo vou à mesma hora  aprender  o lirismo das ruas calcetadas de lua e sobra-nos prazo ao tempo destas palavras em que o digo. é este o transito   do texto, as perguntas a que não respondo pondo vírgulas   na epiderme  do gesto que só a ti levo. estamos sempre entre  duas entradas e duas saídas franjadas de nós.

maria andersen

 *( Eduardo Pitta)