sábado, 31 de março de 2012

OS AMANTES




        Tradução de José Jeronymo Rivera

" Quem os vê andar pela cidade
 se todos estão cegos?
 Eles se tomam as mãos: algo fala
 entre seus dedos, línguas doces
 lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
 e acima a noite está cheia de olhos.

 São os amantes, sua ilha flutua à deriva
 rumo a mortes na relva, rumo a portos
 que se abrem nos lençóis.
 Tudo se desordena por entre eles,
 tudo encontra seu signo escamoteado;
 porém eles nem mesmo sabem
 que enquanto rodam em sua amarga arena
 há uma pausa na criação do nada
 o tigre é um jardim que brinca.

 Amanhece nos caminhões de lixo,
 começam a sair os cegos,
 o ministério abre suas portas.
 Os amantes cansados se fitam e se tocam
 uma vez mais antes de haurir o dia.

 Já estão vestidos, já se vão pela rua.
 E só então,
 quando estão mortos, quando estão vestidos,
 é que a cidade os recupera hipócrita
 e lhes impõe os seus deveres quotidianos."
                                                                         Julio Cortázar

domingo, 25 de março de 2012

Uma Certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny, in "Pena Capital"

a brisa corre junto à janela onde o dia transborda de sede

há aqui a incandescência das paredes gastas


fico sentada 
criança profunda  
perdida 
entre a memória




há aqui paredes que cantam

e as portas são eternas

·         fotografias e texto de maria andersen

domingo, 18 de março de 2012

Excellent!

"Small Metal Gods "- pura poesia


Postscriptum




Postscriptum 

"... apercebo o lume dum coração antigo e simples
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter...
... aqui deixo o espólio daquele cuja vida
é cintilação de lugares nítidos...

(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)

... tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar...
... mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite... talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou...

... vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo... "


Al Berto