gatos folhas deitados no dia
tardes abertas para dentro
ópio do tempo
no esmero das cidades invadidas
bancos de solidão à sombra
chuva de humanidade a remendar palavras
noite que o poema aquece entre as mãos
olhos guardados na fimbria de uma qualquer flor
maria andersen
Em cada um de nós há dois seres. Os dois coexistem em nós, o do estado prosaico e o do estado poético. Ambos constituem o que somos.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
atravesso vozes como ruas

tenho vinho de rosas à porta
damascos maduros
quase gente
nuvens discípulas como casas
no fundo dos meus olhos
atravesso vozes como ruas
palavras como bosques inóspitos
e sentidos que invoco grávidos
como mães
de crianças ao colo
maria andersen
sábado, 31 de março de 2012
OS AMANTES
Tradução de José Jeronymo Rivera
" Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam as mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
e acima a noite está cheia de olhos.
São os amantes, sua ilha flutua à deriva
rumo a mortes na relva, rumo a portos
que se abrem nos lençóis.
Tudo se desordena por entre eles,
tudo encontra seu signo escamoteado;
porém eles nem mesmo sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na criação do nada
o tigre é um jardim que brinca.
Amanhece nos caminhões de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes cansados se fitam e se tocam
uma vez mais antes de haurir o dia.
Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E só então,
quando estão mortos, quando estão vestidos,
é que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os seus deveres quotidianos."
Julio Cortázar
domingo, 25 de março de 2012
Uma Certa Quantidade
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
Mário Cesariny, in "Pena Capital"
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
Mário Cesariny, in "Pena Capital"
a brisa corre junto à janela onde o dia transborda de sede
há aqui a incandescência das paredes gastas
fico sentada
criança profunda
perdida
entre a memória
há aqui paredes que cantam
e as portas são eternas
· fotografias e texto de maria andersen
terça-feira, 20 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
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