domingo, 1 de julho de 2012




são estas horas exactas 

estou no vértice do limiar só para poder ver)(te
as montanhas olham-me mudas
como os índios habitam os dias até ao fundo
atravessando uma escada sagrada e geométrica
enquanto as horas sobem à encarnação da luz
tão súbitas no sol que há em ti
assim  perpassam o templo como uma esfinge

a mãe sempre me ignorou de cores
pariu um desenho que lhe bateu à porta
na conjugação dos elementos
formas quebradas de um só golpe
que nos fazem cantar os verbos mais finitos
" a gramática infame do medo"
a espuma e o riso dos jogos de amor
"os filhos da madrugada"
tudo se deita não para dormir  nem para morrer
mas para se fazer poesia noutro ser
eu deito-me não para desistir mas para levantar-me 
num canto erecto com a ternura possessa de abismos
e a entrega absoluta henry miller
na loucura acesa em que me crio
nesta caverna de lençóis habitados de pássaros
com lições desaprendidas - como unicórnios 
a beber água nos canos da pistola

? que sonhos nos mudam de lugar
há murmurios que me falam onde te procuro
eu amo-te
no obliquo pássaro do ombro
alcatrão talvez em que rasgamos coisas antigas
braceletes caídas no choro do rio
a roubar o fogo às manhãs em que regressamos
com olhos marinheiros

o poema pode ser isto
um íntimo vento que nos passa por dentro a lançar pedras

assim me incompleto de ser o que não sou 

aqui

quinta-feira, 21 de junho de 2012

dou música aos cantos

partir por entre as horas a caminho de qualquer coisa e ficar
há uma legenda ao canto, um sono casual, uma boca fechada e divagando à meia folha
em que escrevo    se olho vejo à janela o que existe junto ao lume
assim eu dou música aos cantos e tu danças na estrada branca sobre uma batalha de gestos
os dias nunca foram iguais  -  criamos neles tambores febris, parques onde os plátanos
 se afundam até às águas e outras pequenas distrações quotidianas -
andas descalço nas palavras neste meio tempo das letras e tens nas mãos labirintos que te cabem nos olhos e entre nós dá-se a mesma intranquilidade bíblica.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

tudo nos é caro e raro

tudo é o que dizes – divisão
uma divisão em que se somam pés
uma árvore que cresce para dentro do teu som
uma mão que te adormece
Ariadne indica-te o rumo mas não vês
a rosa desfolha-se no caminho
o perfume colhe-se na chuva
que adormece nas veias
tudo nos é caro e raro
 e de tudo somos discípulos
- ladra um cão lá fora como plateia sonora
tens dedos de prata abismados nas cordas
o vinho na garganta a dar-te gás
e a estreita dimensão que por dentro te alarga
vem de outros tempos tudo o que és
tens “tchi-cum” na harmonia
- eu sorvo-me no alperce que como
e raia-me de repente o sol nos olhos
mas tu não vês
estou na ante – entrada de mim

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Uma semente riso cantando anos à janela


meticulosamente o perfume da matemática
a bicicleta linear
o sapato no anel da tarde
o móvel nas tuas mãos
e um frio finito
um olhar sem intervalos
um retrato polindo o ar
um caracol poeta
um fósforo à mesa
um buraco na sombra
uma boca na fuga
uma limalha no sono
uma manta no porão
um riso coberto de estima
o chão trabalhando a vida
uma capa suada
um sabor tecendo o nome
 um gesto dizendo a cor
os punhos pousando nas letras
um escriba no leilão
uma ilusão no trampolim
uma biblioteca surda
um pacote de mistérios ao fim da tarde
um lucro para o lixo
um desvario epigramático
uma arca a dobrar camisas
uma cabeça descart-áve( l )
uma rosa  em deleite
luz à boca da fome
um tijolo na paz dos contos
um zumbido de bicho azul
uma semente de riso
cantando anos à janela
e curvas no oceano 
pátria de cobiças extensas como fios
uma esmeralda na preguiça
uma lua a meio bordo
uma rua concertada
uma mão selva cantada
uma imagem distraída
um filme da minha vida




segunda-feira, 21 de maio de 2012

qualquer coisa de tempo pousado em mim

gatos folhas deitados no dia
tardes abertas para dentro
ópio do tempo
no esmero das cidades invadidas
bancos de solidão à sombra
chuva de humanidade a remendar palavras
noite que o poema aquece entre as mãos
olhos guardados na fimbria de uma qualquer flor


maria andersen

domingo, 20 de maio de 2012

atravesso vozes como ruas


tenho vinho de rosas à porta
damascos maduros
quase gente
nuvens discípulas como casas
no fundo dos meus olhos
atravesso vozes como ruas
palavras como bosques inóspitos
e sentidos que invoco grávidos
como mães
de crianças ao colo


maria  andersen

sábado, 31 de março de 2012

OS AMANTES




        Tradução de José Jeronymo Rivera

" Quem os vê andar pela cidade
 se todos estão cegos?
 Eles se tomam as mãos: algo fala
 entre seus dedos, línguas doces
 lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
 e acima a noite está cheia de olhos.

 São os amantes, sua ilha flutua à deriva
 rumo a mortes na relva, rumo a portos
 que se abrem nos lençóis.
 Tudo se desordena por entre eles,
 tudo encontra seu signo escamoteado;
 porém eles nem mesmo sabem
 que enquanto rodam em sua amarga arena
 há uma pausa na criação do nada
 o tigre é um jardim que brinca.

 Amanhece nos caminhões de lixo,
 começam a sair os cegos,
 o ministério abre suas portas.
 Os amantes cansados se fitam e se tocam
 uma vez mais antes de haurir o dia.

 Já estão vestidos, já se vão pela rua.
 E só então,
 quando estão mortos, quando estão vestidos,
 é que a cidade os recupera hipócrita
 e lhes impõe os seus deveres quotidianos."
                                                                         Julio Cortázar