domingo, 23 de setembro de 2012

                        

teço degraus na chuva -
o tecto é verde
o teu sono um campo de goivos
onde danço

grito-me por dentro
onde os ouvidos escutam

desenhei-te na parede junto aos colares
onde o quarto é imenso
pela noite onde o corpo é quartzo

a janela céu pintado na pupila
onde o relâmpago é "rosa de água"




pintura e poema de maria andersen


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

cantemos
as veias jorram nas árvores
nas raízes  o sol arde a pique
e os que leêm não entendem
vivo noutras vozes
porque o destino não me cabe nas mãos
tenho o fim por inimigo
as letras como estradas longas
de onde extraio humanidade

maria andersen

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

 
 
 
 
 
é o lustre das palavras a exausta navegação -
assim esta calma melopeia
e o caminho de vento e giz à minha frente
 
 
maria andersen
(obra - Picasso)


meus seios nus
que aos teus olhos regressam
 
 
(poema - maria andersen)

? ser ou não ser ?

 
(obra - Júlio Pomar)


são tantos os que não sabem
são tantos os que não bebem
mãos de rotundas vazias
olhos dentro das fronteiras
tantas as cores onde o sonho a medo se esbate
há a queda, o riso
há a hora, o tempo desmedido
há o sol a pique
a rua sem saída
há os livros vagos entre os dedos
as palavras de que não se sabe o sentido
há as horas
os gestos
as vozes
uma longa avenida de
distracções que rasgam o céu
há bocejos
cansaço
há fome
há partidas
um mundo dentro do nada
há o espanto
uns olhos que me ficam por dentro
e tu que nem me  sabes
tão  há porta de ti
há a guarda
a linha
o horizonte
 
há a cela
o ser
a vontade
a piedade
há o preto     o pranto      o jogo
até onde a poesia desce
há a silva     a selva
os papeis
a conversa torpe  da ânsia
o zumbido que reclama
o contracto  do que se ignora
o porto sem abrigo que ejacula
abismos  entre os olhos
corrupção - as senhas furadas nos risos
meias luas frias - exactamente ao meio dia
desdobráveis oxigenados
informações nas esquinas
joanas nos capitéis do arame
avé marias nas bocas dos mudos
anéis largos a travar as línguas
surdez a quanto me obrigas
moral a que te prendes
na ortodoxia das preces sem pressa
faca onde me corto
com holofotes no garfo
catedral do desespero
telhas de vidro sujas e sem barcos a assalto
engravatados negros de alcatrão
a tresandar a podridão
no avesso de mim
um parque esgotado de babilónias
e mil agulhas a coser buracos
no nailon dos dias
sou proletária neste campo onde me semeio
e rego com anti leis
os pedaços em que me reparto
a morte saiu ao corpo
a mente tece o jazigo
onde se dorme tão perto da vida
aqui ensaio o enigma
 
?"ser ou  não ser" ?
 
 ( poema -  maria andersen)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

voragem a boca dentro da rosa



é o vidro meu amor
é a toalha
é o recorte do jornal
a noticia que ninguém lê
é a cadeira
a corda tensa
o chocolate negro
o nó que a tua boca aperta
é a jarra no lugar vazio
é o pão que fumega
é o sol da tarde ferindo
é o touro manuscrito
é o espectro o alicerce
é o relógio e o cordeiro
é o amor e o limão no mostrador
é a balança e a fé
é o tempo é o mapa
é o riso e a pele
é o mar é a noite
o sentido de dentro
a labareda nos membros
a boca dentro da rosa
a chuva a cair toda por dentro

meu amor


maria andersen

sábado, 14 de julho de 2012

correm por aí noticias
onde as mãos são corpos
o tacto olhos

podiam soletrar dicionários
à boca das cerejas
é sábado e o vento dança nas folhas
a inquisição está nos verbos
onde desce a maré
estou no quarto crescente de mim a domar renas nos pensamentos
sempre quis andar de carrocel
junto ao rio onde as canoas cortam as águas

estou descalça
à proa da viagem
e tenho discípulos à porta


fico no verde entre os teus olhos
o bom samaritano  caí-me nas vogais
dobrando segredos
nos cabelos dos poetas

o caminho nunca se acaba de abrir junto à fronteira
a garganta é rosa aberta sobre a música
onde te abraço

se os anjos fossem menos breves
podiam estatelar-se junto às estrelas a ver literatura

a esta hora nascem-me na boca romãs
as perdizes estão todas à janela
do sonho a quebrar aís

aqui tudo me diz sinos
tudo me diz sopro
tudo me diz profano
tudo me diz tesoura
na "ricotta"

e enfim:
tudo me é descanso


maria andersen